Aninha era uma menina encantadora na sua pouca idade. Franzina, pequenina, o que chamava a atenção eram os seus olhos, grandes e luminosos. Dela não havia quem não gostasse. Dava-se bem com as crianças, era querida pelos adultos e só tinha o pai como companheiro preferido. A mãe morrera no parto. Eram pobres, muito pobres. Às vezes, a fome rondava a porta. Brinquedos, nem pensar. Bonecas só as das colegas na escola.
Todavia, Aninha jamais se queixava das agruras da vida. Só sentia não ter um irmãozinho com quem partilhar folguedos e brincadeiras. Esse irmão era o seu sonho de felicidade.
Foi então que surgiram os primeiros sintomas da doença. Um definhar lento, progressivo e insidioso minava a energia vital daquele corpinho de tão frágil aparência.
Dizem que foi perto do Natal que Aninha piorou e já não saía do leito. O pai, desesperado e impotente, clamava aos céus por um milagre.
Na véspera do dia de Natal houve uma conversa entre pai e filha, bem abraçados.
- “Filha, que posso dar-te de presente, apesar de não poder gastar muito?”.
- “Pai, não desejo presentes, mas quero de ti uma promessa. Irás cumpri-la?” O pai pressuroso logo aquiesceu e inquiriu sobre o que deveria fazer para atender ao pedido.
- “Esta noite, quero que consigas a maior e mais alta vela de cera possível. Nela gravarás de alto a baixo a palavra esperança. Depois a levarás ao cimo do campanário da igreja e a acenderás. A chama será forte e brilhante, a vela pouco a pouco irá derreter e com ela, a palavra. Ao final, as pessoas, todas elas, terão compreendido”.
-“Compreendido o quê?” pergunta o pai, entre incrédulo e confuso.
-“Paizinho, que a chama da esperança é eterna, que não se acaba com a consumição da vela. Quando tudo mais cessa, ainda restará uma chama brilhando dentro do coração das gentes. Mesmo a morte jamais irá triunfar, pois quando leva o ser amado, ela perfaz a alquimia de transformar esperança em saudade”.
O pai deixou Aninha adormecida e cumpriu a promessa. A chama de início brilhou forte e depois esvaiu-se. As pessoas viram e se maravilharam. Entenderam a mensagem universal, esperança de novas maravilhas na história dos homens, independente de credos religiosos, sectarismos e ideologias.
Ao voltar para casa, o pai não achou mais Aninha. Só um mirrado e sofrido corpinho. Conta a lenda que ela sonhou e no sonho havia ganho um irmão, um lindo menininho. Este, carinhosamente, tomou-lhe da mão, e suavemente voaram rumo ao céu. Juntinhos. De mãos dadas. Aninha e o Menino Jesus.
Esta foi a forma que encontrei de desejar Boas Festas aos meus queridos associados, em particular àqueles que ainda guardam a candura de gostar de contos de natal. Feliz 2010!
Joaquim Sérgio Corrêa
Presidente